quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mudanças

Há dias que passam por mim como sonhos em que não tenho quaisquer possibilidades de acção, sendo remetido para um papel de mero espectador. No final, o que acaba por azucrinar a bússola da minha razão não é a frustração - aquela que deveria vir da impotência - mas antes a sua ausência. Como se consciente ou inconscientemente me resignasse e deixasse andar. Esses dias sabem-me um pouco a dias de junkie, mas sem drogas. Estranho-me. Muito. Mas como no fundo pressinto que é apenas uma fase que deverá cumprir uma qualquer função, deixo que passe em modo piloto automático. Claro que o meu mês de Agosto foi atípico. Não um mês de Agosto atípico (apesar de também o ter sido), mas sim um mês atípico. No final de Julho mudei de casa e de sítio de trabalho. Mudanças não são uma chatice - são uma valente merda. Num espaço de cinco anos mudei de casa três vezes. Mas fazem-se e um homem arrepia caminho. Principalmente quando acontecem como aconteceram desta última vez, quando se muda porque deixa de haver dinheiro para a renda e afinal acaba-se por encontrar um sítio que sabe mais a casa num bairro que não apenas o aparenta ser, como tantos em Lisboa. Uma pessoa não pode deixar de se sentir contente, ao mesmo tempo que vai apreciando, cada vez mais, as sublimes ironias da vida. O que me quebrou foi interromper as rotinas. Isto é-me fácil de pensar, não tão fácil de escrever, tornando-se um bocado difícil de ler, mas nem por isso deixa de ser aquilo em que acredito, aqui e agora. Entre as mudanças e um par de acontecimentos que não importa aqui esmiuçar, vi-me impedido de ir trabalhar (aqui abro um parêntesis para mandar à merda todos aqueles que acham que os músicos não trabalham, que aquilo que nós fazemos é outra coisa, é só um divertimento que proporciona outros divertimentos: desenganem-se de uma vez por todas, é um trabalho que não deixa de o ser porque tem muitas coisas boas, sendo que uma remuneração condigna não é uma delas, nos dias que correm). Quase sem dar por isso já faz um mês que não tenho dois dias seguidos na minha sala e a síndrome de abstinência aperta. Desconfio que esta não se faria sentir se estivesse a viajar pela América Central, ou do Sul, por exemplo, mas à excepção de uma providencial semana no Algarve com a filhota e um belo concerto com o amigo Tim e os seus Companheiros de Aventura no Alentejo, tenho estado em Lisboa, a maior do tempo com uma média de temperatura superior a trinta e dois graus. E isso não pode ser bom para ninguém.
Percebo agora que a minha alienação já não é a mesma de outros tempos. Ela dá-se mas os meios do processo são perfeitamente distintos. Outra diferença é que noutros tempos a rotina fazia-me procurar escapes, agora a falta dela é que o faz. Se calhar não mudei assim tanto como possa parecer. Ou se calhar a verdadeira mudança foi encontrar uma rotina verdadeiramente aprazível, muito simplesmente.




4 comentários:

  1. eu odeio fazer mudanças. mesmo que vislumbre que será para melhor. "fazemos sempre amor" com aquelas paredes que sabem tanto de nós, é impossivel deixá-las vazias, abandoná-las sem sentir uma estaca cá dentro.
    passamos a vida a dizer que fugimos das rotinas,que não temos rotinas. tretas! somos animais de hábitos, precisamos sempre de ver algo em comum com o dia de amanhã. A não ser que se seja eterno viajante de mochila às costas, mas será esse livre? ou alguém que quer fugir de si mesmo?
    ninho, casa, rede, é isso que precisamos e até pode ser no topo de uma arvore. E de preferência com vista para o cristo rei :)

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  2. *precisamos sempre de ver algo em comum com o dia de ontem.

    (era isto que queria dizer, mas é demasiado cedo :)

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  3. Podia apenas ler e ficar no meu canto. Mas, tenho que dizer que adoro a tua escrita, já a seguia na revista do Correio da Manhã (a primeira página que via da revista que aparece todos os domingos lá em casa...) e agora por aqui!
    As rotinas fazem-me "comichão" mas no fundo é mesmo isso... somos "animais de hábitos"!
    Por agora espero que continues este hábito de escrever por aqui porque é muito inspirador ler!

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  4. "...é um trabalho que não deixa de o ser porque tem muitas coisas boas, sendo que uma remuneração condigna não é uma delas, nos dias que correm".
    É bem verdade. Não para todos os artistas (), mas é verdade. Pena. Anyway, mais um bom texto, adoro a tua escrita. Big up :)

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