segunda-feira, 26 de agosto de 2013

E não poderia ser sempre assim?

 
Sábado à noite em casa, num Algarve a rebentar pelas costuras, vou vendo o Steven Seagal dar cabo de uma série de operacionais da CIA renegados no “Força Em Alerta” enquanto eu próprio dou cabo de um “Carte D’Or” de caramelo com a mesma resolução, sabedoria e, consequentemente, satisfação. Quem disse que a vida não é majestosa? Só quem nunca teve um serão destes, com certeza. Claro que só assim de repente, posso pensar numa dúzia de maneiras mais porreiras de passar as últimas horas de um excelente sábado, mas não valerá a pena fazê-lo, até porque não posso concretizar uma que seja. Quando não há muitas opções, a vida torna-se bem mais simples, e eu gosto da simplicidade. A minha filha dorme lá dentro, exausta do calor e agitação da praia e seus divertimentos, com uma barriga cheia como só uma avó pode encher. E a sua barriga carregada de amor e alimento enche a minha alma. Estou feliz, portanto. Tão serenamente feliz que até chego a acreditar que se o Benfica perder com o Gil Vicente posso ligar um pouco menos ao futebol português e que já que assinei a Benfica TV sempre tenho o campeonato mais competitivo do mundo, o britânico, à disposição. Mas o meu Benfica não perde, faz-me sofrer até aos noventa e três minutos, altura em que me levanto da cadeira do café aqui perto, esbracejando e gritando como um babuíno excitado, enraivecido. Para a semana há de haver sofrimento a dobrar e,  certamente menos feliz do que agora, não cairei na ilusão de achar que posso largar o Benfica de um dia para o outro. Mas isso é para a semana. Hoje o tempo está nublado (o que até dá jeito para escrever estas palavras) mas espero ir à praia lá mais para a tarde, para inventar novos castelos e bolos e cantar os parabéns  a pessoas reais e do faz de conta, porque com a minha filhota podemos fazê-lo todos os dias. Nos seus tempos de primeiro-ministro, quando ainda não tinha compreendido que quanto mais abrisse a boca mais   hipóteses tinha de ficar mal visto, Cavaco Silva disse nunca ter dúvidas e raramente se enganar. Já a minha filha, sem o constatar, nunca se aborrece e raramente se chateia. Prestes a aborrecer-se, arranja maneira de fazer com que isso não chegue a acontecer. Nestes dias de excepção vou seguindo os seus passos e, meu Deus, como esse caminho pode ser tão bom de trilhar. Amanhã é capaz de fazer mais calor e se assim for a praia não vai ter um metro livre de pessoas sobrepondo-se a pessoas, impondo as suas vozes numa Babel incompreensível e ensurdecedora. Mas nós não nos iremos ralar, arranjaremos o nosso espaço, se não ficarmos duas horas ficamos uma, e antes, durante e depois da praia o tempo nunca será desperdiçado ou mal passado. E não poderia ser sempre assim?

5 comentários:

  1. Muito bom! Gosto de ler estes textos, fico bem-disposto e é mesmo isso que se quer, não é?
    Às segundas cá estarei no teu blogue à espera de mais um post, abraço

    ResponderEliminar
  2. As saudades que eu tinha desta escrita :)

    ResponderEliminar
  3. Algarve a rebentar pelas costuras, de facto parece-me algo digno de aproveitar "num serão pacífico em casa" com um bom programa. De facto as férias quando todos os outros também estão de férias, podem ser um pouco menos férias, e mais assoberbantes que um fastidioso dia de trabalho.

    De facto a vida torna-se majestosa, ou ainda mais majestosa, quando podemos desfrutar de um serão, ou de uma tarde, ou de pelo menos um momento, em que o sentimento seja exactamente o que descreveste... Gozo da perfeição que a simplicidade dá a tudo quanto toca. E não é essa perfeição da simplicidade que as crianças trazem a tudo, e tornam o mundo à sua volta mais simples, mais belo, e claro mais perfeito?
    E se o tempo com elas é perfeito, então claro que nunca é desperdiçado.

    Mas e será que "nós, adultos" continuaríamos a dar-lhe tanto valor, se ele não nos fosse tantas vezes negado, e apenas pontualmente oferecido?



    PS: Esta semana os nervos do Benfica, foram mais a triplicar...

    ResponderEliminar