quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os Nossos Discos

Quando me perguntaram em entrevistas se gostava mais do trabalho de estúdio e de criação ou de tocar ao vivo respondi quase sempre que gostava um pouco mais do primeiro. Aquele momento em que uma música ou a sua ideia, uma letra ou uma melodia aparecem do nada é inexplicável. E especialmente gratificante. Michael Jackson dizia que não era ele que criava a sua música - era Deus que lha dava. Regra geral quando não conseguimos explicar algo, chutamos para o céu. Dos primeiros esboços até à finalização de um disco vai um caminho recheado de peripécias, dores de cabeça e muitos nirvanazinhos. Há um mundo de possibilidades à nossa frente: fazemos videoclipes mentais das canções, imaginamos a sua passagem nas rádios, o que é que o locutor irá dizer no princípio ou fim da sua passagem, ou com que outros temas é que elas poderão colar bem nas ondas radiofónicas. Pensamos no que é a que nossa mãe poderá achar delas ou se será desta que o nosso pai vai gostar de uma. Visualizamos mil capas. Deitamo-nos com a certeza que “x” música está a soar de caralho e acordamos com dez ideias novas para a mesma música que, afinal, não estará a soar assim tão bem. Finalmente, bem ou mal, chegamos ao ponto em que acreditamos ter  um disco digno desse nome e atiramo-nos de cabeça. Aí apresenta-se um outro mundo de possibilidades: às vezes os discos ficam nas prateleiras e tudo aquilo que planeámos para eles esfumaça-se no ar. Às vezes os críticos arrasam-nos sem pensar por um segundo que estão a falar de uma obra da nossa dedicação, de um trabalho de amor. Às vezes falam bem dos nossos discos mas o público não acha o mesmo. Muito raramente, a crítica e o público concordam (até nós próprios acreditamos, apesar da estranheza causada) e o disco faz uma boa carreira. Mas por agora ainda estou na fase anterior, em que vou fazendo megalómanos videoclipes mentais, em que me deito e acordo com a mesma música, ou pelo menos parte dela, e pelo meio vou sonhando. Muito.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mudanças

Há dias que passam por mim como sonhos em que não tenho quaisquer possibilidades de acção, sendo remetido para um papel de mero espectador. No final, o que acaba por azucrinar a bússola da minha razão não é a frustração - aquela que deveria vir da impotência - mas antes a sua ausência. Como se consciente ou inconscientemente me resignasse e deixasse andar. Esses dias sabem-me um pouco a dias de junkie, mas sem drogas. Estranho-me. Muito. Mas como no fundo pressinto que é apenas uma fase que deverá cumprir uma qualquer função, deixo que passe em modo piloto automático. Claro que o meu mês de Agosto foi atípico. Não um mês de Agosto atípico (apesar de também o ter sido), mas sim um mês atípico. No final de Julho mudei de casa e de sítio de trabalho. Mudanças não são uma chatice - são uma valente merda. Num espaço de cinco anos mudei de casa três vezes. Mas fazem-se e um homem arrepia caminho. Principalmente quando acontecem como aconteceram desta última vez, quando se muda porque deixa de haver dinheiro para a renda e afinal acaba-se por encontrar um sítio que sabe mais a casa num bairro que não apenas o aparenta ser, como tantos em Lisboa. Uma pessoa não pode deixar de se sentir contente, ao mesmo tempo que vai apreciando, cada vez mais, as sublimes ironias da vida. O que me quebrou foi interromper as rotinas. Isto é-me fácil de pensar, não tão fácil de escrever, tornando-se um bocado difícil de ler, mas nem por isso deixa de ser aquilo em que acredito, aqui e agora. Entre as mudanças e um par de acontecimentos que não importa aqui esmiuçar, vi-me impedido de ir trabalhar (aqui abro um parêntesis para mandar à merda todos aqueles que acham que os músicos não trabalham, que aquilo que nós fazemos é outra coisa, é só um divertimento que proporciona outros divertimentos: desenganem-se de uma vez por todas, é um trabalho que não deixa de o ser porque tem muitas coisas boas, sendo que uma remuneração condigna não é uma delas, nos dias que correm). Quase sem dar por isso já faz um mês que não tenho dois dias seguidos na minha sala e a síndrome de abstinência aperta. Desconfio que esta não se faria sentir se estivesse a viajar pela América Central, ou do Sul, por exemplo, mas à excepção de uma providencial semana no Algarve com a filhota e um belo concerto com o amigo Tim e os seus Companheiros de Aventura no Alentejo, tenho estado em Lisboa, a maior do tempo com uma média de temperatura superior a trinta e dois graus. E isso não pode ser bom para ninguém.
Percebo agora que a minha alienação já não é a mesma de outros tempos. Ela dá-se mas os meios do processo são perfeitamente distintos. Outra diferença é que noutros tempos a rotina fazia-me procurar escapes, agora a falta dela é que o faz. Se calhar não mudei assim tanto como possa parecer. Ou se calhar a verdadeira mudança foi encontrar uma rotina verdadeiramente aprazível, muito simplesmente.




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

E não poderia ser sempre assim?

 
Sábado à noite em casa, num Algarve a rebentar pelas costuras, vou vendo o Steven Seagal dar cabo de uma série de operacionais da CIA renegados no “Força Em Alerta” enquanto eu próprio dou cabo de um “Carte D’Or” de caramelo com a mesma resolução, sabedoria e, consequentemente, satisfação. Quem disse que a vida não é majestosa? Só quem nunca teve um serão destes, com certeza. Claro que só assim de repente, posso pensar numa dúzia de maneiras mais porreiras de passar as últimas horas de um excelente sábado, mas não valerá a pena fazê-lo, até porque não posso concretizar uma que seja. Quando não há muitas opções, a vida torna-se bem mais simples, e eu gosto da simplicidade. A minha filha dorme lá dentro, exausta do calor e agitação da praia e seus divertimentos, com uma barriga cheia como só uma avó pode encher. E a sua barriga carregada de amor e alimento enche a minha alma. Estou feliz, portanto. Tão serenamente feliz que até chego a acreditar que se o Benfica perder com o Gil Vicente posso ligar um pouco menos ao futebol português e que já que assinei a Benfica TV sempre tenho o campeonato mais competitivo do mundo, o britânico, à disposição. Mas o meu Benfica não perde, faz-me sofrer até aos noventa e três minutos, altura em que me levanto da cadeira do café aqui perto, esbracejando e gritando como um babuíno excitado, enraivecido. Para a semana há de haver sofrimento a dobrar e,  certamente menos feliz do que agora, não cairei na ilusão de achar que posso largar o Benfica de um dia para o outro. Mas isso é para a semana. Hoje o tempo está nublado (o que até dá jeito para escrever estas palavras) mas espero ir à praia lá mais para a tarde, para inventar novos castelos e bolos e cantar os parabéns  a pessoas reais e do faz de conta, porque com a minha filhota podemos fazê-lo todos os dias. Nos seus tempos de primeiro-ministro, quando ainda não tinha compreendido que quanto mais abrisse a boca mais   hipóteses tinha de ficar mal visto, Cavaco Silva disse nunca ter dúvidas e raramente se enganar. Já a minha filha, sem o constatar, nunca se aborrece e raramente se chateia. Prestes a aborrecer-se, arranja maneira de fazer com que isso não chegue a acontecer. Nestes dias de excepção vou seguindo os seus passos e, meu Deus, como esse caminho pode ser tão bom de trilhar. Amanhã é capaz de fazer mais calor e se assim for a praia não vai ter um metro livre de pessoas sobrepondo-se a pessoas, impondo as suas vozes numa Babel incompreensível e ensurdecedora. Mas nós não nos iremos ralar, arranjaremos o nosso espaço, se não ficarmos duas horas ficamos uma, e antes, durante e depois da praia o tempo nunca será desperdiçado ou mal passado. E não poderia ser sempre assim?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A escrita tem muito que se lhe escreva.


Não leio nem escrevo tanto como devia. Pelo menos como acho que devia. E nessa perspectiva a minha escrita é um pouco como o meu sexo. Cada vez que os faço, penso "Merda, mas porquê que eu não passo a vida a fazer isto, mesmo?!" O que mais tenho escrito são textos soltos, levemente poéticos, sem um fim e muitas vezes nem sequer com um princípio, quando me apetece. Há cerca de um mês participei, juntamente com o Pedro Mexia, numa conversa, em género de tertúlia, levada a cabo sob o mote "Este país não é para poetas" e moderada por Luís Filipe Borges. Obviamente, o Mexia fez a maior parte da despesa apalavrada (calma que lhe pedi autorização para poder tratá-lo assim em frente aos meus amigos - se calhar vezes a mais, dado que antes disso me tinha pedido o mail para me enviar um poema seu de que falámos e a verdade é que nunca mais chegou a dizer o que quer que fosse). A dada altura, falou-se sobre métodos de trabalho e inspiração. Atirei que cada vez me fio menos na inspiração e tento pôr mãos ao trabalho antes que a mesma apareça. Ora, isto é uma meia verdade. Há pouco mais de dois anos arranjei uma sala para trabalhar, quer esteja a gravar/compor para um disco ou não. Vou todos os dias para lá, tentando cumprir um horário muito parecido com o de qualquer outro trabalho normal. E tenho conseguido. Mas quando me sento para trabalhar, faço-o maioritariamente para a composição, gravação, produção e edição de música. Quando escrevo, escrevo para músicas e mesmo assim muitas vezes acabo por utilizar material que tinha guardado. Não sei se esta é uma boa altura para iniciar um blog. Está tudo muito rápido, muito intenso e muito descartável, também. O Davide Pinheiro, amigo almadense jornalista e blogger, ao escrever sobre um concerto de que tinha gostado dizia-o da seguinte forma: “uma ida ao telemóvel durante uma hora é obra”. Uma tirada genial e sintomática dos tempos que correm. Regra geral só apanho o comboio quando este está prestes a parar. A semana passada comecei a usar o Instagram, o que deve querer dizer que este deve estar a dar os últimos passos. Nunca me pareceu boa ideia assumir um blogue porque conhecendo-me bem, sei que à partida não serei o tipo mais assíduo na colocação de textos mas desde que deixei de escrever para o Correio da Manhã que sinto falta de me obrigar a pensar a mim próprio, o mundo e a vida pelo menos uma vez por semana em poucos milhares de caracteres. Já tinha ameaçado começar a escrever um texto por semana na página do Facebook do ALGODÃO, mas como disse um sábio português, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, e acho que esta será a via mais indicada para o que me proponho fazer. O nome deste blogue é o nome que sempre quis dar às crónicas do CM, mas nunca houve espaço naquele espaço para isso. Já a fotografia é sacada do Google, pelo menos por enquanto. Até para a semana. Espero eu.